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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

retomar

hj eu li isso, e relembrei o comecinho da minha história com bê há 10 anos atrás e aí, foi inevitável pensar em como as grandes histórias da nossa vida acontecem, ontem, hoje e sempre.


bem desse jeito.















terça-feira, 20 de setembro de 2016

quando isso tudo acabar

eu sei que eu vou achar que não foi nada demais, e que vou logo ta pensando no doutorado. Mas eu jur que eu preciso de um ano longe de obrigações academicas. Eu sei que isso é agora, e que quando terminar eu vou achar que eu devo e posso fazer isso comigo.... mas oh gente, eu to escrevendo aqui pra dizer que hoje, EU PRECISO DE UM ANO DE FOLGA. Eu preciiiiiso....Eu preciso só trabalhar uma vez na minha vida. Preciso ter só essa obrigação produtiva,.


Agora eu to aqui, escrevendo. To num momento bom da escrita, ta saindo, ta ganhando corpo, um outro corpo, uma outra perspectiva, eu to me colocand sem medo no trabalho, e borrando todas as verdades sobre produções de saberes. Quebrando os paradigmas da ciência. Ciência sua lynda, me ature.

Mas a cada paragrafo q eu escrevo lá sinto vontade de escrever 4 aqui. E eu tenho me comportado com relação a isso. pq... ahh... pq eu me conheço, e cada dia vou querer escrever mais aqui e menos lá...e foi por isso q eu acabei com meu facebook por um tempo. Precisava me concentrar e a militancia me convoca muiiiito por lá, e eu n resisto a militancia. Aliás, é lá q sou feliz, o mestrado é só sobrevivencia tecnica.

gora eu vou respirar letras, e esquecer o mundo.


só belchior salva

Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei
Jovem que desce do norte pra cidade grande
Os pés cansados e feridos de andar légua tirana
Lágrima nos olhos de ler o pessoa
E de ver o verde da cana

Em cada esquina que eu passava um guarda me parava
Pedia os meus documentos e depois sorria
Examinando o 3x4 da fotografia
E estranhando o nome do lugar de onde eu vinha

Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade disso Newton já sabia!
Cai no sul grande cidade
São Paulo violento, corre o rio que me engana
Copacabana, zona norte e os cabarés da lapa onde eu morei
Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar
Que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar
Mas a mulher, a mulher que eu amei
Não pode me seguir não

Esses casos de família e de dinheiro eu nunca entendi bem
Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua
A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
E pela dor eu descobri o poder da alegria
E a certeza de que tenho coisas novas
Coisas novas pra dizer

A minha história é talvez
É talvez igual a tua, jovem que desceu do norte
Que no sul viveu na rua
Que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
Que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
Que ficou apaixonado e violento como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você que me ouve agora
Eu sou como você
Como você

3x4 - belchior lindo amordavida


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Transforma-ações

Ser feminista é um aprendizado diário. Eu não canso de me surpreender comigo e com a potencia transformadora do auto conhecimento enquanto feminista e minhas relações com o mundo, e nesse exato instante, com a minha precária heterossexualidade. Cadadia fica mais desenhado p mim quão complexo é conciliar a luta e a pratica feminista com a heterossexualidade, ainda mais dentro na logica conpulsoria monogamica. Com isso n quero de forma alguma flertar c a ideia equvocada de que n ha possibilidade de existência de feminismo na heterossexualidade e vice versa. É muito mais conplexo. Esse parece que foi o ano de enfrentar esse debate interno e externo. E estou aprendendo muito com minhas vivencias. É incrivel como naturalizamos a ideia de que outra mulher é um potencial ameaçador de nossa hetero-relação. Não que n haja essa mesma dinamica nas relaçoes lesbicas e bissexuais mas eu so posso falar de onde me localizo. É muito doloroso pra mim estar envolvida nesse jogo. Me deparar com a minha incoerencia de estar nessa luta e quando me percebo estar nessa situação tipicamente hetero entre duas mulheres e um homem, é assim qe sinto o esvaziamento da minha luta. Chego a me sentir uma fraude, sei que isso dialoga com
Muitas coisas mas estar vivendo isso dói pra caralho. Talvez seja aquela hora do empoderamento que o clique acontece e a gente nunca mais consegue deixar de ser impactada por isso , aquele caminho sem volta. Se for isso, óteeeemo! Decisões precisam ser tomadas. E o que torna a vida melhor é saber que quando temos uma convicção tão transformadora fica mais facil cuidar do coração, nosso e dxs outrxs, e direcioná-lo a nosso senso ético dentro de uma luta muito maior. Sua benção minha mãe Iansã, olorum modupé pelos sinais!

domingo, 11 de setembro de 2016

Un Vestido Y Un Amor

Te vi
Juntabas margaritas del mantel
Ya sé que te traté bastante mal
No sé si eras un angel o un rubí
O simplemente te vi.

Te vi
Saliste entre la gente a saludar
Los astros se rieron otra vez
La llave de mandala se quebró
O simplemente te vi.

Todo lo que diga está de más,
Las luces siempre encienden en el alma
Y cuando me pierdo en la ciudad
Vos ya sabés comprender
Es solo un rato no más
Tendría que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi
Yo no buscaba nadie y te vi.

Te vi
Fumabas unos chinos en Madrid
Hay cosas que te ayudan a vivir
No hacías otra cosa que escribir
Y yo simplemente te vi.

Me fui
Me voy de vez en cuando a algún lugar
Ya sé, no te hace gracia este país
Tenías un vestido y un amor
Y yo simplemente te vi.

Todo lo que diga está de más,
Las luces siempre encienden en el alma
Y cuando me pierdo en la ciudad
Vos ya sabés comprender
Es solo un rato no más
Tendría que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi
Yo no buscaba nadie y te vi.

Caê

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

tu vens, tu vens, eu ja escuto teus sinais.

A escritura é isto: a ciência das fruições da linguagem, seu kama-sutra ( Roland Barthes)

Estou chegando lá. hj ela primeira vez, eu senti vontade de escrever a minha dissertação. pena estar tão cansada para começar a mexer hoje nisso. Eu ja tenho uns escritos, e ela ta toda aqui dentro de mim. Estou naquele movimento pré regorgeio, em breve vem tudo.

Hoje, assistir a defesa de doutorado de Carlota me fez sentir muito melhor, e pensar muitas coisas, e planejar meu desplanejar com o meu processo criativo. Estou liberada. Me dei alta da crise.

Pretendo dar cabo disso até final do mês. Entregar meu texto praquela lora maldita, qualificar e só parar de escrever quando o mundo se acabar dentro de mim.

Estou ansiosa por isso.

Três capítulos. É disso que eu preciso.

Pensando em infância, em cuidado, em cisnormatividade, psicanálise, e tudo aquilo que eu já sei.



"Texto de prazer: aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura. Texto de fruição: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas, do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem. " Barthes,1987

Estou citando Barthes e registrando tudo isso aqui pq eu sei o quão esse blog me faz lembrar das coisas, então que seja mais um pouco ainda útil.
Depois de muitos dias sem dormir, quase enlouquecendo, hoje finalmente posso dizer qeu estou morta de sono.
FINALMENTE. achei q  enlouqueceria.

um beijo barthes querido, vc é a minha salvação.



quinta-feira, 1 de setembro de 2016

setembrou

eu nem tenho mais nada pra dizer
pra devagar,

romatizar
poetizar
nem pra nada

só vim aqui pq enchi o saco agosto todo
então
vim trazer as flores de setembro
pra dizer que acabou
e que já começou




Pra ser justa com a vida, com os ciclos, com os devires, os ires, os novos ares.



tudo novo
de novo





...Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos...

moska.paulinho.lindo


orieiê ô


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Vai.

tem gente que é burra por opção. Tem gente que é burra por falta de opção. Tem gente que usa da burrice pra manter seus privilégios e continuar se beneficiando deles, ou seja, é canalha. Tente gente que não aceita outras verdades.outras possibilidades.

O caminho do empoderamento é um só.
Depois que a gente caminha junto com outras mulheres, depois que reconhecemos o quanto o mundo é perverso e desigual conosco.... é impossível colocar outras coisas acima disso. Impossível voltar atrás.

Eu venho caminhado nisso há quase 7 anos. Sempre fui inquieta , sempre questionei as normas. Sempre me causou um grande incomodo a cegueira. A obediência pela obediência, nunca me convenceu. Mas quando eu fui compreender a estrutura social, e como se dão as relações de poder, uma grande transformação aconteceu comigo. E eu ainda estou nesse processo.
Durante esse caminho, muitas relações se fizeram, e muitas, se refizeram, e de um tempo pra cá, se desfizeram.

Eu nunca fui de descartar pessoas. Eu sempre fui romântica. Romântica no sentido de acreditar sempre no melhor das pessoas. Sempre pensando que mesmo que aquela pessoa me mostre o pior dela, tem uma coisa ali que pode ser modificada, tem um pontinho ali que pode ser regado, que pode servir pra nutrir o que construimos de relação.

Na minha caminhada precisei me desfazer disso um pouco. Eu que sempre fiz questão de juntar, de somar, de investir com e nas pessoas.... isso é de um desafio incrível.E nossa... como me doía... como foi difícil. Pra quem sempre deixou portas abertas, trancar algumas delas para sempre.... com cimento, dói.
Pra quem sempre fez questão estar perto e mover o mundo, nem q fosse por uns minutos de felicidade, de troca.... dói.

Eu aprendi muito nesse processo. Aprendi a conhecer meu limite, aprendi que eu não preciso ter todas as pessoas do meu lado, custe o que custar. Porque uma opinião não é só uma opinião... uma opinião pode ser ofensiva, pode ser violenta, pode oprimir outras pessoas, pode dizer muita coisa sobre o que vc é e o que vc está dispostx a ser.

Ao longo do tempo, precisei dar tchau a lindas historias, precisei colocar prioridades na minha vida. precisei dizer: agora chega. A despedida nunca é fácil. Meu luto dura muito, e eu nem sempre estou certa de que estou pronta pra me desligar...... mas eu sei que me sinto muito mais coerente e feliz comigo.

Não é só em nome de uma luta. E se fosse, ainda assim, seria legitimo. Mas nesses casos, específicos, onde vejo pessoas indo embora de perto de mim, e as deixo irem mesmo, faço pq me faz mal tê-las perto de mim a qualquer custo. As vezes me sinto como imagino que seja conviver com uma pessoa em estado terminal.... Aquele corpo não tem mais por onde viver, não sabe mais como fazer isso, mas o apego da gente faz querer ele ali de qualquer jeito...mesmo que apodrecendo em nossa frente.
Eu entro numa briga sangrenta comigo mesmo.
Cheguei a conclusão, então, que o apego deve ser a história, a lembrança, e não a materia. Pq é a materia que fode tudo. O que foi construido ate ali de sensação, grandeza e beleza, pode estar a salvo num campo lúdico, onde é possível deixar o romantismo acontecer. E fazer disso virar letras, sons e saudades. Melhor assim

Mas eu preciso deixar uma coisa desenhada:

Eu não quero só pessoas que pensem como eu, eu não quero pessoas que só lutem do meu lado. Não. Não é isso. Logo eu que penso e luto pelas diferenças....Mas eu preciso estabelecer relações, sejam qual for, com pessoas que escutem. Dialoguem. Eu preciso de pessoas que me olhem, e reflitam, se estejam dispostas a se rever, e me façam rever, mas não como querem que eu me veja... e sim, como um processo de auto critica nosso. Isso pra mim hoje define quem fica e quem sai da minha vida.
Eu não quero compactuar com violências, mas tb não quero me fechar a uma possibilidade de compartilhar crescimentos com alguém. E vou vivendo negociando isso com quem quer.

E eu sei do meu limite.

Eu jamais vou permitir que me façam de instrumentos de molecagem para com outras mulheres. Isso engloba muita coisa, não serei escudo, nem arma Nunca mais na vida. NUNCA. Eu nunca mais vou compactuar com a violência a outras mulheres, eu nunca mais vou permitir que homens ou mulheres algumas usem da minha luta para tentar me inferiorizar, para me taxar como uma coisa ou outra e me reduzir a isso.. Eu nunca mais vou aceitar jogos perversos de opressão contra quem quer que seja, só pra manter um vinculo, e fazer vontades aos corações e desejos, de quem quer que seja. Porque isso me agride também. Porque eu jamais vou encontrar qualquer prazer ou felicidade nisso.

PELO CONTRÁRIO.

Meu tesão vai embora com gente perversa. Meu tesão vai embora com quem acha que o mundo está a seu dispor e que suas urgências são as maiores do mundo e que é a pessoa mais incompreendida desse mundo. Que pauta sua vida a partir da narrativa de que é vitima de uma serie de coisas , como se não tivesse participado de tudo, como se fosse possível não ser protagonista de suas escolhas.
Eu não tenho paciência. e não sou obrigada.

Eu fiz esse post nesse momento de reencontro comigo, essas mudanças são contínuas e não são lineares, e vão e vem..... e a cada vez q eu vou lá, e retorno, eu volto mais forte para mim, e percebendo o quão eu gosto da mulher que eu sou hoje.

Eu faço esse post pq pessoas vão embora.

Mas eu estou certa que isso é muito mais um problema seus do que meu.

E certa de que cada caminho é um, e que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Essas pessoas vão embora, e eu deixo ir, pq antes disso, eu dei todas as chances de ficar.

Esse post tb é pq agosto acabou. ACABOU.


Primavera Nos Dentes

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera

ney matogrosso 

ultimo dia

Ultimo dia de agosto. Tinha que ser.
O dia começou já dizendo tudo. Acordei atrasada e na porta de casa, esperando o carro passar, me dei conta que vesti a calça jeans pelo avesso. Que tipo de pessoa veste uma CALÇA JEANS pelo avesso? Vou pra escada do prédio desvirar a calça. Lógico que alguém ia sair de casa bem as 6 da manhã ( hj é dia de golpe babyyy) e me ver trocando de roupa no meio da escada. Vai embora agosto! Calma, respira. Quem, estando a beira de um golpe parlamentar, se preocupa em vestir uma calça do lado certo? Me perdoo.
Na rua, o dia está normal. NORMAL. Não tem nenhum sinal de fumaça nas ruas. Nenhum pneu incendiado, nenhum corpo no chão, nenhum sinal de bomba, ninguém acampado em lugar nenhum. Nem os cartazes. Nada. As pessoas estão em seus carros, seus ônibus, indo bater seus pontos... talvez se lembrem que dia 5 tá chegando, que a primavera vem vindo, que hj é dia de Xangô e Iansã... talvez, até pensem: hoje o GOLPE será consumado.
A cabeça dói. E aumenta ao longo da manhã... e o corpo começa a dar sinais. Eu somatizo sempre. Merda de corpo burro.
Meio dia já sou a pessoa mais pálida da cidade, e me dirijo a uma emergência de um hospital perto de casa. E de lá assisto a vida seguir, medíocre, enquanto a TV cobre o golpe parlamentar no mudo. Silêncio. Ninguém se mexe, nada. Só meu corpo grita junto com resultado do meu exame: RINOSINUSITE CRÔNICA.
Venham cá amigues, vamos se abraçar , se cuidar e começar a planejar a guerra civil, pq o roubo já aconteceu, a constitucionalidade é uma fraude. Não me chamem pra escrever carta de repudio e caminhar pacificamente, eu quero é linha de frente. 


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Ilegais

Desse jeito vão saber de nós dois
Dessa nossa vida
E será uma maldade veloz
Malignas línguas
Nossos corpos não conseguem ter paz
Em uma distância
Nossos olhos são dengosos demais
Que não se consolam, clamam fugazes
Olhos que se entregam
Ilegais

Eu só sei que eu quero você
Pertinho de mim
Eu quero você
Dentro de mim
Eu quero você
Em cima de mim
Eu quero você

Desse jeito vão saber de nós dois
Dessa nossa farra
E será uma maldade voraz
Pura hipocrisia
Nossos corpos não conseguem ter paz
Nessa aventura
Nossos olhos são dengosos demais
Que não se consolam, clamam fugazes
Olhos que se entregam
Olhos ilegais

Eu só sei que eu quero você
Pertinho de mim
Eu quero você
Dentro de mim
Eu quero você
Em cima de mim
Eu quero você

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Do fundo do coração, ou Love, Love, Love* - Despedida de Caio



“Sempre acreditei que toda vez que a gente entra numa igreja pela primeira vez, vê uma estrela cadente ou amarra no pulso uma fitinha de Nosso Senhor do Bonfim, pode fazer um pedido. Ou três.
Sempre faço. Quando são três, em geral, esqueço dois. Um nunca esqueci. Um sempre pedi: amor.
Nunca tinha tido um amor. O quê? Aos 35 anos, agitando desse jeito? Explico: claro que tive dúzias e dúzias, outro dia até tentei contar e me perdi na altura do número cento e trinta e muito. Mas tudo rapidinho, assim, uma hora, um dia, uma semana, um mês, pouco mais. Nunca, digamos, UM ANO. Então quando alguém suspirava e dizia cara estou saindo de um caso de DEZ anos, meu olho arregalava de pura inveja. Histórias mais compridinhas, claro que rolaram. Maria Clara, por exemplo, mas a gente morava, eu em Sampa, ela no Rio, amor-ponte-aérea. Caríssimo. Isso, das moças. Dos moços, aquele bailarino americano em London, London, quatro/cinco meses. Talvez seis? Numa tarde de compras e roubos em Portobello Road me deu de presente um cacto (perfeito!) e me deixou plantado até hoje. Esse era amor-de-metrô, último trem entre Hammersmith e Euston. Onde andará? ("Onde andará?” é das perguntas mais tristes que conheço, sinônimo de se perdeu.)
Eis que de tanto pedir, insistir, acender vela, fazer todos os feitiços para Santo Antônio e Oxum e concentrar, rezar, mentalizar, eis que pintou. Ano passado me baixou um encosto de São Francisco de Assis, joguei (literalmente) pela janela quase tudo que tinha e, com duas malas, parti para o Rio. Não queria mais me prender a nada. Nem a Sampa, bem-amada. Numa ida a Porto Alegre, em agosto, deu-se. Explosão: à primeira vista. Tudo o que dissemos, depois de um longo suspiro de alívio, foi: eu amo você. Pasmem: verdade das verdadeiras. Ousadias do coração que saca, na hora, a intensidade do lance. E não disfarça. Bueno, tinha pintado.
Então tá. Romance comme il faut: dias numa casinha no meio de bosques em Gramado. Depois a volta ao Rio e, como dizia Ana Cristina Cesar (Aninha, Ana C., a bela, que falta você me faz menina fujona!), “amizade nova com o carteiro do Brasil”. Laudas e laudas de cartas de amor, uma por dia, duas por dia, dez por dia. Fotos, poemas, juras interurbanas. Voltei. Nós fomos os dois para o Rio. Dois meses lá: o amor resistia, mas nenhum estava a fim de pegar no pesado. Então fazer o quê? Dividir quarto pensão na Lapa, andar de ônibus, comer espiga de milho e misto quente? Nenhum acreditava em teu-amor-e-uma-cabana, também não era preciso teu-amor-e-um-rolls-royce (seria ótimo), mas pelo menos uma vitrolinha para fazer amor ao som do Bolero, de Ravel (amor tem desses lugares-comuns quase inconfessáveis). Voltamos. Verão em Torres. Camas de trinta horas. Passeios. Dunas, praia da Guarita. Filme. A sunga verde de lycra.
De repente uma luzinha vermelha começou, cigarro no escuro, a piscar dentro de mim. Foi no carnaval que passou. Suspeitas: porra, eu me afastei de tudo, de todos, joguei tudo pro alto e só quero esse amor, nada mais me interessa, se esse amor me faltar (pode?) eu só tenho isso, é o único laço que me prende à vida - e se faltar, Deus, se faltar o que faço? Noites paranóicas, medo Ritchie. E… se dançar? Aí dançou. Foi dançando. Não sei bem como. Uma tarde peguei nas suas mãos e, bem cruel (punhais: como a gente sabe apunhalar com engenho e arte, crava devagarinho a lâmina, depois revira, dentro da ferida), pedi assim: olha bem dentro dos meus olhos e me responde à seguinte pergunta: “Você não me ama mais?”.
Silêncio tão espesso que consegui ouvir o ruído do movimento de rotação da Terra. Feito nas novelas das seis, eu abri a boca quando ouvi a resposta. Um lento Não. Um claro Não. Um seguro Não. Um límpido Não. Um tranquilo Não. Um sem dúvida alguma Não. Um afirmativo Não. Repete, pedi. Repetiu. Pede-se não enviar flores, pensei. Fechei a porta. Fiquei só, chovia. Com requintes de autopiedade, limpei devagarinho com feltro um disco da Elis, deitei no chão e ouvi umas cem vezes “Se quiser falar com Deus”. Quando já ia abrir o gás, corri para o telefone e pedi ao Zé Márcio Penido em Sampa: socorro. Vem, ele disse. Santo amigo. Fui, na mesma hora. Me estonteei, vi todos os filmes, todas as peças, revi todos os amigos, ouvi todos os discos, namorei o que deu. Tinham sido NOVE MESES de fidelidade, no amor-amor, é sempre supernatural. Quando decidi estou-ótimo-fullgás-total-posso-voltar, voltei. The reencontro: quando dei por mim estava dizendo as coisas mais duras e agressivas e cruéis e impiedosas e injustas e ferinas e baixas e grossas que uma pessoa pode dizer à outra.
Comecei a me perder pela cidade. Selecionei vinte gatos & gatas mais lindos do pedaço, dez semifinalistas, cinco finalistas, transei todos. Saí sem parar. De bar em bar, telefone tocando sem parar. Explodindo de vitalidade e saúde e sedução: capacidade de superação. Puxa, gente, como sou maravilhoso, como sou maduro e equilibrado, como sei dar a volta por cima, como não sou careta, como sou moderno e liberadésimo. Aí, desabou. Dez dias. De manhã bem cedo, chegando da vida, percebi uma pequena rachadura na parede externa do edifício. Avançava lentissimamente. Ao meio-dia rachou de alto a baixo. O edifício veio ao chão: me interna, pedi pra mãe, estou infeliz pra caralho. Peguei o pacote de cartas que tinha pedido de volta (fiz absolutamente todos os números, o problema é que a plateia estava vazia: ninguém aplaudiu minha melhor sequência de sapateado), coloquei aos pés de Ogum.
E agora, Caio F.? Agora, estou amanhecendo. Ah, me digo, então era assim. Essa coisa, o amor. Já conheço? Já conheço. Mas como é mesmo que se chama? Também não estou certo se estarei mesmo amanhecendo. Talvez, sim, anoitecendo, essas luzes penumbrosas são muito parecidas. Não sei muita coisa. Quase nada. Pedi? Levei. Nunca tinha sido tão intenso, nem tão bonito. Nunca tinha tido um jeito assim, tão forever. Não me diga que vai passar, vai passar, vai passar, vai passar. Não me diga que foi ótimo, o que você queria, a eternidade? Não me peça para não te encher o saco lamuriando. Posso não saber nada do coração das gentes, mas tenho a impressão, de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de “Atrás da porta”, ali no quando “dei pra maldizer o nosso lar pra sujar teu nome, te humilhar”. Chico Buarque é ótimo pra essas coisas. Billie Holiday é ótima pra essas coisas. E Drummond quando ensina que “o amor, caro colega, esse não consola nunca de núncaras”. Aí você saca que toda música, toda letra, todo poema, todo filme, toda peça, todo papo, todo romance, tudo e todos o tempo todo, antes, agora e depois, falam disso. Que o que você sente é único & indivisível e é exatamente igual à dor coletiva, da Rocinha a Biarritz. O coro de anjos de Antunes Filho levanta no ar, em triunfo, os corpos mortos de Romeu e Julieta enquanto os Beatles pedem um little help from my friends, e a plateia ainda aplaude de pede bis (o Gonzaguinha também é ótimo pra essas coisas). Meus amigos, abandonados para que eu pudesse mergulhar, voltaram a mil. Tem seus prazeres o fim do amor. Se é patologia, invenção cristã-judaico-ocidental-capitalista, ou maya, ego, se é babaquice, piração, se mudou-através-dos-tempos, puro sexo, carência, medo da morte: não interessa. Tenho certeza que estive lá, naquele terreno. Ele existe.
Por isso falo dele: Joyce e Paula me pediram elucubrações, as minhas são estas. Estou contando a vocês que estou fazendo elucubrações sobre o amor porque provavelmente, de uma outra forma vocês aí que me leem, talvez com tédio, também estão pensando a mesma coisa. O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor. Até as relações de produção, a luta de classes, a ecologia, o jogo pelo poder: tudo, questão de amor. Formas de amor. Amor é palavra que inventamos para dar nome ao Sol abstrato em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados. A vida toda. Mas se me perguntarem o que quero dizer com isso, não tenho resposta.
O que quero dizer é justamente o que estou dizendo. Não estou com pena de mim. Tá tudo bem. Tenho tomado banho, cortado as unhas, escovado os dentes, bebido leite. Meu coração continua batendo - taquicárdico, como sempre. Dá licença, Bob Dylan: it’s all right man, I’m just bleeding. Tá limpo. Sem ironias. Sem engano. Amanhã, depois, acontece de novo, não fecho nada, não fechamos nada, continuamos vivos e atrás da felicidade, a próxima vez vai ser ainda quem sabe mais celestial que desta, mais infernal também, pode ser, deixa pintar. Se tiver aprendido lições (amor é pedagógico?), até aproveito e não faço tanta besteira. Mas acho que amor não é cursinho pré-vestibular. Ninguém encontra seu nome no listão dos aprovados. A gente só fica assim. Parado olhando a medida do Bonfim no pulso esquerdo, lado do coração e pensando, pois é, vejam só, não me valeu.“
*Texto de Caio Fernando Abreu na revista Around, por volta de 1985. Retirado do livro "Para sempre teu, Caio F.”, de Paula Dip.




segunda-feira, 22 de agosto de 2016

OS SOBREVIVENTES - escolhido -

escolhi esse, pq eu me identifico totalmente com esse texto dele.
Fui ver que nesse mês a ja postei mais de 10 vezes no mês de agosto, isso diz muito sobre agosto,e mais ainda sobre mim.

Para ler ao som de Ângela Ro-Ro 

Sri Lanka, quem sabe? ela me pergunta, morena e ferina, e eu respondo por que não? mas inabalável ela continua: você pode pelo menos mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka, que cara louco esse, hein, e morram de saudade, não é isso que te importa? Uma certa saudade, e você em Sri Lanka, bancando o Rimbaud, que nem foi tão longe, para que todos lamentem ai como ele era bonzinho e nós não lhe demos a dose suficiente de atenção para que ficasse aqui entre nós, palmeiras & abacaxis. Sem parar, abana-se com a capa do disco de Ângela enquanto fuma sem parar e bebe sem parar sua vodca nacional sem gelo nem limão. Quanto a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a atos públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, uma dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha de centro em junco indiano que apóia nossos fatigados pés descalços ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaa-ro, tentamos tudo, inclusive trepar, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sociopolíticos existenciais e bababá em comum só podiam era dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta. Que foi que aconteceu, que foi meu deus que aconteceu, eu pensava depois acendendo um cigarro no outro e não queria lembrar, mas não me saía da cabeça o teu pau murcho e os bicos dos meus seios que nem sequer ficaram duros, pela primeira vez na vida, você disse, eu acreditei, pela primeira vez na vida, eu disse, e não sei se você acreditou. Eu quero dizer que sim, que acreditei, mas ela não pára, tanto tesão mental espiritual moral existencial e nenhum físico, eu não queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, éramos melhores, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos mais, éramos vagamente sagrados, mas no final das contas os bicos dos meus peitos não endureceram e o teu pau não levantou. Cultura demais mata o corpo da gente, cara, filmes demais, livros demais, palavras demais, só consegui te possuir me masturbando, tinha a biblioteca de Alexandria separando nossos corpos, eu enfiava fundo o dedo na buceta noite após noite e pedia mete fundo, coração, explode junto comigo, me fode, depois virava de bruços e chorava no travesseiro, naquele tempo ainda tinha culpa nojo vergonha, mas agora tudo bem, o Relatório Hite liberou a punheta. Não que fosse amor de menos, você dizia depois, ao contrário, era amor demais, você acreditava mesmo nisso? naquele bar infecto onde costumávamos afogar nossas impotências em baldes de lirismo juvenil, imbecil, e eu disse não, meu bem, o que acontece é que como “bons-intelectuais-pequeno-burgueses” o teu negócio é homem e o meu é mulher, podíamos até formar um casal incrível, tipo aquela amante de Virgínia Woolf, como era mesmo o nome da fanchona? Vita, isso, Vita Sackville-West e o veado do marido dela, ora não se erice, queridinho, não tenho nada contra veados não, me passa a vodca, o quê? e eu lá tenho grana para comprar wyborowas? não, não tenho nada contra lésbicas, não tenho nada contra decadentes em geral, não tenho nada contra qualquer coisa que soe a: uma tentativa. Eu peço um cigarro e ela me atira o maço na cara como quem joga um tijolo, ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, a velha angst, saco, mas ando, ando, mais de duas décadas de convívio cotidiano, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, ah não me venha com essas histórias de “atraiçoamos-todos-os-nos-sos-ideais”, eu nunca tive porra de ideal nenhum, eu só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista capitalista, eu só queria era ser feliz, cara, gorda, burra, alienada e completamente feliz. Podia ter dado certo entre a gente, ou não, eu nem sei o que é dar certo, mas naquele tempo você ainda não tinha se decidido a dar o rabo nem eu a lamber buceta, ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois Castaneda, depois Lang embaixo do braço, aqueles sonhos tolos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50 em Paris, 60 em Londres ouvindo here comes the sun here comes the sun little darling, 70 em Nova York disco-music no Studio 54, 80 a gente aqui mastigando esta coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora nem esquecer esse azedo na boca. Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê? não é plágio do Pessoa não, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesusinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma, você vai curtir os seus nativos em Sri Lanka depois me manda um cartão-postal contando qualquer coisa como ontem à noite, na beira do rio, deve haver uma porra de rio por lá, um rio lodoso, cheio de juncos sombrios, mas ontem na beira do rio, sem planejar nada, de repente, sabe, por acaso, encontrei um rapaz de tez azeitonada e olhos oblíquos que. Hein? claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos, fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, eu te olhava entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidário & positivo, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira,
reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária e bababá bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, voltei a isso que dizem que é o normal, e cadê a causa, meu, cadê a luta, cadê o po-ten-ci-al criativo? Mato, não mato, atordôo minha sede com sapatinhas do Ferro's Bar ou encho a cara sozinha aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca, neste apartamento que pago com o suor do po-ten-ci-al criativo da bunda que dou oito horas diárias para aquela multinacional fodida. Mas, eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, ginseng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CW às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas tipo “preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentro-de-mim-baba-bá-bababá” e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia, ela pára e pede, preciso tanto tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era, eu então estendo o braço e ela fica subitamente pequenina apertada contra meu peito, perguntando se está mesmo
muito feia e meio puta e velha demais e completamente bêbada, eu não tinha estas marcas em volta dos olhos, eu não tinha estes vincos em torno da boca, eu não tinha este jeito de sapatão cansado, e eu repito que não, que nada, que ela está linda assim, desgrenhada e viva, ela pede que eu coloque uma música e escolho ao acaso o Noturno número dois em mi bemol de Chopin, eu quero deixá-la assim, dormindo no escuro sobre este sofá amarelo, ao lado das papoulas quase murchas, embalada pelo piano remoto como uma canção de ninar, mas ela se contrai violenta e pede que eu ponha Ângela outra vez, e eu viro o disco, amor meu grande amor, caminhamos tontos até o banheiro onde sustento sua cabeça para que vomite, e sem querer vomito junto, ao mesmo tempo, os dois abraçados, fragmentos azedos sobre as línguas misturadas, mas ela puxa a descarga e vai me empurrando para a sala, para a porta, pedindo que me vá, e me expulsa para o corredor repetindo não se esqueça então de me mandar aquele cartão de Sri Lanka, aquele rio lodoso, aquela tez azeitonada, que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. A chave gira na porta. Preciso me apoiar contra a parede para não cair. Por trás da madeira, misturada ao piano e à voz rouca de Ângela, nem que eu rastejasse até o Leblon, consigo ouvi-la repetindo e repetindo que tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo bem. Axé, axé, axé! eu digo e insisto até que o elevador chegue axé, axé, axé....

Caio F. de Abreu.


------ a lora, como sempre, mexeu no meu vespeiro. Reler Caio F de abreu, era o q fatava pra me fuder. Sou só arrepios.






Quase Nada --- 1o. setembro 2016 -----

De você sei quase nada
Pra onde vai ou por que veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada
No meu caminho

Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso
Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo

Noite alta que revele
Um passeio pela pele
Dia claro madrugada
De nós dois não sei mais nada

De você sei quase nada
Pra onde vai ou por que veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada
No meu caminho

Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso

Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo
Se tudo passa como se explica
O amor que fica nessa parada
Amor que chega sem dar aviso
Não é preciso saber mais nada


Sins (Caio sabe fudê tudo, e eu gosto)

"Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou “o que foi?” — perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a) — mas a morte é inevitável, e portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor — essa pessoa — continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo — porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem
se terá, quando o fim do amor é: NEVER.
Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-semele-não-vivo-então-quero-morrer-e-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: “Se você não
me amar, eu matarei o presidente.” E deu um tiro em Ronald Reagan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George — se não houver golpe publicitário nisso — é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.
No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo, sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do
pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o eterno do perecível, loucos.
Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François
Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua.
Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele:
transformara-se no símbolo sem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: “É para você, para você que eu escrevo” — dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.
Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando
nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que — se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor — depois do não, depois do fim — reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.
Ai, que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa — muito mais sábio —, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, “o amor car(o, a) colega esse não consola nunca de núncaras”. E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins."

Extremos da Paixão
O Estado de S. Paulo, 8/7/1986

pequenas epifanias de Caio F. de Abreu

 "Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”.

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —
enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos,
também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não
querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não
aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não
aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos,
com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De
repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água,
entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que
nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia
protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos se armavam de outro
jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro
do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me
reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah
você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando
esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair
daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você,
no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no
quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector — “Tentação” — na
cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza
aprisionada. Ela, com sua infância impossível.” Cito de memória, não sei se correto. Fala no
encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também
ruivo, que passa acorrentado. Ele para. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o
puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos,
acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que
velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem
solitária do não pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado,
também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito joias
encravadas no dia a dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca
vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida
vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer
coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à
noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que
ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e
com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma
possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de
dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face.
Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro
de sentir fome."


Esse é um texto do Caio. E eu voltei nele pq nele tenho vontade de nunca mais sair das letras, só através delas me faço entender, e encontro a compreensão.

Obrigada Caio, por ter sido tão maravilhosamente completo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

esses dias_o vento vai responder_


Meu coração tá batendo
Como quem diz:
"Não tem jeito!"
Zabumba bumba esquisito
Batendo dentro do peito...



TA FODA. ta barril.tô lascada. é isso. eu sei.
Mês fudido, lascando com meus processos subjetivos. Eu preciso dizer que tô pra ficar doida. Se não fosse a música pra onde ia tudo?

Vamo lá. Abstrai. 












Eu não vou mudar, não
Eu vou ficar são
Mesmo se for só
Não vou ceder
Deus vai dar aval sim
O mal vai ter fim
E no final, assim, calado
Eu sei que vou ser coroado
Rei de mim


...tua lembrança... a estrela me guia.. da alfazema... fiz um bordado, vem meu amor, é hora de acordar..... tenho um anis, tenho hortelã...tenho um cesto de flores, eu tenho um jardim e uma canção....vivo felizzz, eu tenho um amor , eu tenho um desejo e um coração, tenho coragem sei quem eu sou, eu tenho segredo e uma oração. Sei que a minha força é quase santa, como foi santo meu penar foi provocar desejo e  depois renunciar. Estive cansado, meu orgulho de deixou cansado, meu egoismo em deixou cansado, minha vaidade me deixou cansado... não falo pelos outros...só falo por mim.... NINGUÉM VAI ME DIZER O QUE SENTI. ____Amo amo amo amo_ e eu vou cantar uma canção pra mim. 




ja fizemos promessas demaisssss.... já me acostumei com a tua voz, quando estou contigo estou em paz.........quando não estas aqui , teu espirito se perde, voooooaaaaa longeeeeee, lonnnnnnngeeeee.......