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terça-feira, 1 de novembro de 2016

sobre a não-monogamia.

Dez pras seis

Quando o encanto acaba em um canto
Quando eu canto e você não dança mais

Talvez você já esteja dançando em outras notas
Mais afinadas
Talvez a minha música seja complicada demais
Não sou só de uma nota
Minhas canções são plurais
Sinceramente espero que esse seu encanto
Encante
Outros carnavais


Amanda Kahlo

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

paaaaaaaaaaaaaaaaara tempo

minha nossa senhora da temporalidade
ajuda ela
primeiro vem julho, agosto e setembro. 7 anos em 3 meses
tudo acontece
tudo demora
tudo e nada
agora outubro, novembro e  dezembro em 15 dias

essa sensação de que não vou conseguir concluir nada do que deveria no tempo que deveria
adrenalina lá em cima
dessa vez eu nem vou listar
as coisa que eu deveria estar fazendo ao invés de estar aqui
devaneando
vergonha
eu to muito vagal
eu to deixando as outras coisas me ocuparem
mais do que poderiam

isso é que dá ser "o corpo quer a alma entende'

a  alma entende sim
quem não entende é a empresa, o capitalismo, a capes, o orientador...


kkkkk
oh
cê me deixe viu?


que as segundas sejam sempre tão bem dispostas

e sobre a noite

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

segunda é segunda fia

toda vez que culpa começa a operar em mim... alguma coisa acontece, e um tsunami de empoderamento sobre minhas convicções me fazem levantar a cabeça.

vou dizer uma coisa: minha exua não é brinquedo. Ela não quer me ver subjulgada, ela não quer  saber de eu me sentir culpada, quando eu já tenho um longo caminho de construção sobre minhas convicções e sentimentos.


Eu agora sambo sambo sambo.

é só o que me resta.

agora aguente.

Laroyê


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

me segura


"nos poucos dias que antecederam a viagem, mesmo com as discussões, as lágrimas, coma poeira de tragédias recentes ainda prejudicando a visibilidade em meio aos escombros , eu me pegava sorrindo por dentro nos momentos mais inesperados. Como eu podia ter me privado por tanto tempo do sabor das decisões drásticas, do prazer de derrubar uma pecinha de dominó e mudar tudo de forma irreversível? Atenta a essas sensações, eu pensava em coisas como uma banho de sais em uma imensa banheira de quarto de hotel, em glaciares desmoronando, em aviões realizando acrobacias, em mim mesma fazendo coisas que nunca havia feito mas que só podem ser maravilhosas." 




~ cordilheiras

DG


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

quando bate tudo junto


Words like violence 
Break the silence 
Come crashing in
Into my little world 
Painful to me
 Pierce right through me
 Can't you understand 
Oh my little girl 
All I ever wanted 
All I ever needed 
Is here in my arms 
Words are very unnecessary
 They can only do harm 
Vows are spoken
 To be broken 
Feelings are intense 
Words are trivial 
Pleasures remain 
So does the pain 
Words are meaningless
 And forgettable 
All I ever wanted
 All I ever needed 
Is here in my arms 
Words are very unnecessary 
They can only do harm
 Enjoy the silence

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

retomar

hj eu li isso, e relembrei o comecinho da minha história com bê há 10 anos atrás e aí, foi inevitável pensar em como as grandes histórias da nossa vida acontecem, ontem, hoje e sempre.


bem desse jeito.















terça-feira, 20 de setembro de 2016

quando isso tudo acabar

eu sei que eu vou achar que não foi nada demais, e que vou logo ta pensando no doutorado. Mas eu jur que eu preciso de um ano longe de obrigações academicas. Eu sei que isso é agora, e que quando terminar eu vou achar que eu devo e posso fazer isso comigo.... mas oh gente, eu to escrevendo aqui pra dizer que hoje, EU PRECISO DE UM ANO DE FOLGA. Eu preciiiiiso....Eu preciso só trabalhar uma vez na minha vida. Preciso ter só essa obrigação produtiva,.


Agora eu to aqui, escrevendo. To num momento bom da escrita, ta saindo, ta ganhando corpo, um outro corpo, uma outra perspectiva, eu to me colocand sem medo no trabalho, e borrando todas as verdades sobre produções de saberes. Quebrando os paradigmas da ciência. Ciência sua lynda, me ature.

Mas a cada paragrafo q eu escrevo lá sinto vontade de escrever 4 aqui. E eu tenho me comportado com relação a isso. pq... ahh... pq eu me conheço, e cada dia vou querer escrever mais aqui e menos lá...e foi por isso q eu acabei com meu facebook por um tempo. Precisava me concentrar e a militancia me convoca muiiiito por lá, e eu n resisto a militancia. Aliás, é lá q sou feliz, o mestrado é só sobrevivencia tecnica.

gora eu vou respirar letras, e esquecer o mundo.


só belchior salva

Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei
Jovem que desce do norte pra cidade grande
Os pés cansados e feridos de andar légua tirana
Lágrima nos olhos de ler o pessoa
E de ver o verde da cana

Em cada esquina que eu passava um guarda me parava
Pedia os meus documentos e depois sorria
Examinando o 3x4 da fotografia
E estranhando o nome do lugar de onde eu vinha

Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade disso Newton já sabia!
Cai no sul grande cidade
São Paulo violento, corre o rio que me engana
Copacabana, zona norte e os cabarés da lapa onde eu morei
Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar
Que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar
Mas a mulher, a mulher que eu amei
Não pode me seguir não

Esses casos de família e de dinheiro eu nunca entendi bem
Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua
A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
E pela dor eu descobri o poder da alegria
E a certeza de que tenho coisas novas
Coisas novas pra dizer

A minha história é talvez
É talvez igual a tua, jovem que desceu do norte
Que no sul viveu na rua
Que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
Que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
Que ficou apaixonado e violento como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você que me ouve agora
Eu sou como você
Como você

3x4 - belchior lindo amordavida


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Transforma-ações

Ser feminista é um aprendizado diário. Eu não canso de me surpreender comigo e com a potencia transformadora do auto conhecimento enquanto feminista e minhas relações com o mundo, e nesse exato instante, com a minha precária heterossexualidade. Cadadia fica mais desenhado p mim quão complexo é conciliar a luta e a pratica feminista com a heterossexualidade, ainda mais dentro na logica conpulsoria monogamica. Com isso n quero de forma alguma flertar c a ideia equvocada de que n ha possibilidade de existência de feminismo na heterossexualidade e vice versa. É muito mais conplexo. Esse parece que foi o ano de enfrentar esse debate interno e externo. E estou aprendendo muito com minhas vivencias. É incrivel como naturalizamos a ideia de que outra mulher é um potencial ameaçador de nossa hetero-relação. Não que n haja essa mesma dinamica nas relaçoes lesbicas e bissexuais mas eu so posso falar de onde me localizo. É muito doloroso pra mim estar envolvida nesse jogo. Me deparar com a minha incoerencia de estar nessa luta e quando me percebo estar nessa situação tipicamente hetero entre duas mulheres e um homem, é assim qe sinto o esvaziamento da minha luta. Chego a me sentir uma fraude, sei que isso dialoga com
Muitas coisas mas estar vivendo isso dói pra caralho. Talvez seja aquela hora do empoderamento que o clique acontece e a gente nunca mais consegue deixar de ser impactada por isso , aquele caminho sem volta. Se for isso, óteeeemo! Decisões precisam ser tomadas. E o que torna a vida melhor é saber que quando temos uma convicção tão transformadora fica mais facil cuidar do coração, nosso e dxs outrxs, e direcioná-lo a nosso senso ético dentro de uma luta muito maior. Sua benção minha mãe Iansã, olorum modupé pelos sinais!

domingo, 11 de setembro de 2016

Un Vestido Y Un Amor

Te vi
Juntabas margaritas del mantel
Ya sé que te traté bastante mal
No sé si eras un angel o un rubí
O simplemente te vi.

Te vi
Saliste entre la gente a saludar
Los astros se rieron otra vez
La llave de mandala se quebró
O simplemente te vi.

Todo lo que diga está de más,
Las luces siempre encienden en el alma
Y cuando me pierdo en la ciudad
Vos ya sabés comprender
Es solo un rato no más
Tendría que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi
Yo no buscaba nadie y te vi.

Te vi
Fumabas unos chinos en Madrid
Hay cosas que te ayudan a vivir
No hacías otra cosa que escribir
Y yo simplemente te vi.

Me fui
Me voy de vez en cuando a algún lugar
Ya sé, no te hace gracia este país
Tenías un vestido y un amor
Y yo simplemente te vi.

Todo lo que diga está de más,
Las luces siempre encienden en el alma
Y cuando me pierdo en la ciudad
Vos ya sabés comprender
Es solo un rato no más
Tendría que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi
Yo no buscaba nadie y te vi.

Caê

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

tu vens, tu vens, eu ja escuto teus sinais.

A escritura é isto: a ciência das fruições da linguagem, seu kama-sutra ( Roland Barthes)

Estou chegando lá. hj ela primeira vez, eu senti vontade de escrever a minha dissertação. pena estar tão cansada para começar a mexer hoje nisso. Eu ja tenho uns escritos, e ela ta toda aqui dentro de mim. Estou naquele movimento pré regorgeio, em breve vem tudo.

Hoje, assistir a defesa de doutorado de Carlota me fez sentir muito melhor, e pensar muitas coisas, e planejar meu desplanejar com o meu processo criativo. Estou liberada. Me dei alta da crise.

Pretendo dar cabo disso até final do mês. Entregar meu texto praquela lora maldita, qualificar e só parar de escrever quando o mundo se acabar dentro de mim.

Estou ansiosa por isso.

Três capítulos. É disso que eu preciso.

Pensando em infância, em cuidado, em cisnormatividade, psicanálise, e tudo aquilo que eu já sei.



"Texto de prazer: aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura. Texto de fruição: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas, do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem. " Barthes,1987

Estou citando Barthes e registrando tudo isso aqui pq eu sei o quão esse blog me faz lembrar das coisas, então que seja mais um pouco ainda útil.
Depois de muitos dias sem dormir, quase enlouquecendo, hoje finalmente posso dizer qeu estou morta de sono.
FINALMENTE. achei q  enlouqueceria.

um beijo barthes querido, vc é a minha salvação.



quinta-feira, 1 de setembro de 2016

setembrou

eu nem tenho mais nada pra dizer
pra devagar,

romatizar
poetizar
nem pra nada

só vim aqui pq enchi o saco agosto todo
então
vim trazer as flores de setembro
pra dizer que acabou
e que já começou




Pra ser justa com a vida, com os ciclos, com os devires, os ires, os novos ares.



tudo novo
de novo





...Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos...

moska.paulinho.lindo


orieiê ô


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Vai.

tem gente que é burra por opção. Tem gente que é burra por falta de opção. Tem gente que usa da burrice pra manter seus privilégios e continuar se beneficiando deles, ou seja, é canalha. Tente gente que não aceita outras verdades.outras possibilidades.

O caminho do empoderamento é um só.
Depois que a gente caminha junto com outras mulheres, depois que reconhecemos o quanto o mundo é perverso e desigual conosco.... é impossível colocar outras coisas acima disso. Impossível voltar atrás.

Eu venho caminhado nisso há quase 7 anos. Sempre fui inquieta , sempre questionei as normas. Sempre me causou um grande incomodo a cegueira. A obediência pela obediência, nunca me convenceu. Mas quando eu fui compreender a estrutura social, e como se dão as relações de poder, uma grande transformação aconteceu comigo. E eu ainda estou nesse processo.
Durante esse caminho, muitas relações se fizeram, e muitas, se refizeram, e de um tempo pra cá, se desfizeram.

Eu nunca fui de descartar pessoas. Eu sempre fui romântica. Romântica no sentido de acreditar sempre no melhor das pessoas. Sempre pensando que mesmo que aquela pessoa me mostre o pior dela, tem uma coisa ali que pode ser modificada, tem um pontinho ali que pode ser regado, que pode servir pra nutrir o que construimos de relação.

Na minha caminhada precisei me desfazer disso um pouco. Eu que sempre fiz questão de juntar, de somar, de investir com e nas pessoas.... isso é de um desafio incrível.E nossa... como me doía... como foi difícil. Pra quem sempre deixou portas abertas, trancar algumas delas para sempre.... com cimento, dói.
Pra quem sempre fez questão estar perto e mover o mundo, nem q fosse por uns minutos de felicidade, de troca.... dói.

Eu aprendi muito nesse processo. Aprendi a conhecer meu limite, aprendi que eu não preciso ter todas as pessoas do meu lado, custe o que custar. Porque uma opinião não é só uma opinião... uma opinião pode ser ofensiva, pode ser violenta, pode oprimir outras pessoas, pode dizer muita coisa sobre o que vc é e o que vc está dispostx a ser.

Ao longo do tempo, precisei dar tchau a lindas historias, precisei colocar prioridades na minha vida. precisei dizer: agora chega. A despedida nunca é fácil. Meu luto dura muito, e eu nem sempre estou certa de que estou pronta pra me desligar...... mas eu sei que me sinto muito mais coerente e feliz comigo.

Não é só em nome de uma luta. E se fosse, ainda assim, seria legitimo. Mas nesses casos, específicos, onde vejo pessoas indo embora de perto de mim, e as deixo irem mesmo, faço pq me faz mal tê-las perto de mim a qualquer custo. As vezes me sinto como imagino que seja conviver com uma pessoa em estado terminal.... Aquele corpo não tem mais por onde viver, não sabe mais como fazer isso, mas o apego da gente faz querer ele ali de qualquer jeito...mesmo que apodrecendo em nossa frente.
Eu entro numa briga sangrenta comigo mesmo.
Cheguei a conclusão, então, que o apego deve ser a história, a lembrança, e não a materia. Pq é a materia que fode tudo. O que foi construido ate ali de sensação, grandeza e beleza, pode estar a salvo num campo lúdico, onde é possível deixar o romantismo acontecer. E fazer disso virar letras, sons e saudades. Melhor assim

Mas eu preciso deixar uma coisa desenhada:

Eu não quero só pessoas que pensem como eu, eu não quero pessoas que só lutem do meu lado. Não. Não é isso. Logo eu que penso e luto pelas diferenças....Mas eu preciso estabelecer relações, sejam qual for, com pessoas que escutem. Dialoguem. Eu preciso de pessoas que me olhem, e reflitam, se estejam dispostas a se rever, e me façam rever, mas não como querem que eu me veja... e sim, como um processo de auto critica nosso. Isso pra mim hoje define quem fica e quem sai da minha vida.
Eu não quero compactuar com violências, mas tb não quero me fechar a uma possibilidade de compartilhar crescimentos com alguém. E vou vivendo negociando isso com quem quer.

E eu sei do meu limite.

Eu jamais vou permitir que me façam de instrumentos de molecagem para com outras mulheres. Isso engloba muita coisa, não serei escudo, nem arma Nunca mais na vida. NUNCA. Eu nunca mais vou compactuar com a violência a outras mulheres, eu nunca mais vou permitir que homens ou mulheres algumas usem da minha luta para tentar me inferiorizar, para me taxar como uma coisa ou outra e me reduzir a isso.. Eu nunca mais vou aceitar jogos perversos de opressão contra quem quer que seja, só pra manter um vinculo, e fazer vontades aos corações e desejos, de quem quer que seja. Porque isso me agride também. Porque eu jamais vou encontrar qualquer prazer ou felicidade nisso.

PELO CONTRÁRIO.

Meu tesão vai embora com gente perversa. Meu tesão vai embora com quem acha que o mundo está a seu dispor e que suas urgências são as maiores do mundo e que é a pessoa mais incompreendida desse mundo. Que pauta sua vida a partir da narrativa de que é vitima de uma serie de coisas , como se não tivesse participado de tudo, como se fosse possível não ser protagonista de suas escolhas.
Eu não tenho paciência. e não sou obrigada.

Eu fiz esse post nesse momento de reencontro comigo, essas mudanças são contínuas e não são lineares, e vão e vem..... e a cada vez q eu vou lá, e retorno, eu volto mais forte para mim, e percebendo o quão eu gosto da mulher que eu sou hoje.

Eu faço esse post pq pessoas vão embora.

Mas eu estou certa que isso é muito mais um problema seus do que meu.

E certa de que cada caminho é um, e que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Essas pessoas vão embora, e eu deixo ir, pq antes disso, eu dei todas as chances de ficar.

Esse post tb é pq agosto acabou. ACABOU.


Primavera Nos Dentes

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera

ney matogrosso 

ultimo dia

Ultimo dia de agosto. Tinha que ser.
O dia começou já dizendo tudo. Acordei atrasada e na porta de casa, esperando o carro passar, me dei conta que vesti a calça jeans pelo avesso. Que tipo de pessoa veste uma CALÇA JEANS pelo avesso? Vou pra escada do prédio desvirar a calça. Lógico que alguém ia sair de casa bem as 6 da manhã ( hj é dia de golpe babyyy) e me ver trocando de roupa no meio da escada. Vai embora agosto! Calma, respira. Quem, estando a beira de um golpe parlamentar, se preocupa em vestir uma calça do lado certo? Me perdoo.
Na rua, o dia está normal. NORMAL. Não tem nenhum sinal de fumaça nas ruas. Nenhum pneu incendiado, nenhum corpo no chão, nenhum sinal de bomba, ninguém acampado em lugar nenhum. Nem os cartazes. Nada. As pessoas estão em seus carros, seus ônibus, indo bater seus pontos... talvez se lembrem que dia 5 tá chegando, que a primavera vem vindo, que hj é dia de Xangô e Iansã... talvez, até pensem: hoje o GOLPE será consumado.
A cabeça dói. E aumenta ao longo da manhã... e o corpo começa a dar sinais. Eu somatizo sempre. Merda de corpo burro.
Meio dia já sou a pessoa mais pálida da cidade, e me dirijo a uma emergência de um hospital perto de casa. E de lá assisto a vida seguir, medíocre, enquanto a TV cobre o golpe parlamentar no mudo. Silêncio. Ninguém se mexe, nada. Só meu corpo grita junto com resultado do meu exame: RINOSINUSITE CRÔNICA.
Venham cá amigues, vamos se abraçar , se cuidar e começar a planejar a guerra civil, pq o roubo já aconteceu, a constitucionalidade é uma fraude. Não me chamem pra escrever carta de repudio e caminhar pacificamente, eu quero é linha de frente. 


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Ilegais

Desse jeito vão saber de nós dois
Dessa nossa vida
E será uma maldade veloz
Malignas línguas
Nossos corpos não conseguem ter paz
Em uma distância
Nossos olhos são dengosos demais
Que não se consolam, clamam fugazes
Olhos que se entregam
Ilegais

Eu só sei que eu quero você
Pertinho de mim
Eu quero você
Dentro de mim
Eu quero você
Em cima de mim
Eu quero você

Desse jeito vão saber de nós dois
Dessa nossa farra
E será uma maldade voraz
Pura hipocrisia
Nossos corpos não conseguem ter paz
Nessa aventura
Nossos olhos são dengosos demais
Que não se consolam, clamam fugazes
Olhos que se entregam
Olhos ilegais

Eu só sei que eu quero você
Pertinho de mim
Eu quero você
Dentro de mim
Eu quero você
Em cima de mim
Eu quero você

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Do fundo do coração, ou Love, Love, Love* - Despedida de Caio



“Sempre acreditei que toda vez que a gente entra numa igreja pela primeira vez, vê uma estrela cadente ou amarra no pulso uma fitinha de Nosso Senhor do Bonfim, pode fazer um pedido. Ou três.
Sempre faço. Quando são três, em geral, esqueço dois. Um nunca esqueci. Um sempre pedi: amor.
Nunca tinha tido um amor. O quê? Aos 35 anos, agitando desse jeito? Explico: claro que tive dúzias e dúzias, outro dia até tentei contar e me perdi na altura do número cento e trinta e muito. Mas tudo rapidinho, assim, uma hora, um dia, uma semana, um mês, pouco mais. Nunca, digamos, UM ANO. Então quando alguém suspirava e dizia cara estou saindo de um caso de DEZ anos, meu olho arregalava de pura inveja. Histórias mais compridinhas, claro que rolaram. Maria Clara, por exemplo, mas a gente morava, eu em Sampa, ela no Rio, amor-ponte-aérea. Caríssimo. Isso, das moças. Dos moços, aquele bailarino americano em London, London, quatro/cinco meses. Talvez seis? Numa tarde de compras e roubos em Portobello Road me deu de presente um cacto (perfeito!) e me deixou plantado até hoje. Esse era amor-de-metrô, último trem entre Hammersmith e Euston. Onde andará? ("Onde andará?” é das perguntas mais tristes que conheço, sinônimo de se perdeu.)
Eis que de tanto pedir, insistir, acender vela, fazer todos os feitiços para Santo Antônio e Oxum e concentrar, rezar, mentalizar, eis que pintou. Ano passado me baixou um encosto de São Francisco de Assis, joguei (literalmente) pela janela quase tudo que tinha e, com duas malas, parti para o Rio. Não queria mais me prender a nada. Nem a Sampa, bem-amada. Numa ida a Porto Alegre, em agosto, deu-se. Explosão: à primeira vista. Tudo o que dissemos, depois de um longo suspiro de alívio, foi: eu amo você. Pasmem: verdade das verdadeiras. Ousadias do coração que saca, na hora, a intensidade do lance. E não disfarça. Bueno, tinha pintado.
Então tá. Romance comme il faut: dias numa casinha no meio de bosques em Gramado. Depois a volta ao Rio e, como dizia Ana Cristina Cesar (Aninha, Ana C., a bela, que falta você me faz menina fujona!), “amizade nova com o carteiro do Brasil”. Laudas e laudas de cartas de amor, uma por dia, duas por dia, dez por dia. Fotos, poemas, juras interurbanas. Voltei. Nós fomos os dois para o Rio. Dois meses lá: o amor resistia, mas nenhum estava a fim de pegar no pesado. Então fazer o quê? Dividir quarto pensão na Lapa, andar de ônibus, comer espiga de milho e misto quente? Nenhum acreditava em teu-amor-e-uma-cabana, também não era preciso teu-amor-e-um-rolls-royce (seria ótimo), mas pelo menos uma vitrolinha para fazer amor ao som do Bolero, de Ravel (amor tem desses lugares-comuns quase inconfessáveis). Voltamos. Verão em Torres. Camas de trinta horas. Passeios. Dunas, praia da Guarita. Filme. A sunga verde de lycra.
De repente uma luzinha vermelha começou, cigarro no escuro, a piscar dentro de mim. Foi no carnaval que passou. Suspeitas: porra, eu me afastei de tudo, de todos, joguei tudo pro alto e só quero esse amor, nada mais me interessa, se esse amor me faltar (pode?) eu só tenho isso, é o único laço que me prende à vida - e se faltar, Deus, se faltar o que faço? Noites paranóicas, medo Ritchie. E… se dançar? Aí dançou. Foi dançando. Não sei bem como. Uma tarde peguei nas suas mãos e, bem cruel (punhais: como a gente sabe apunhalar com engenho e arte, crava devagarinho a lâmina, depois revira, dentro da ferida), pedi assim: olha bem dentro dos meus olhos e me responde à seguinte pergunta: “Você não me ama mais?”.
Silêncio tão espesso que consegui ouvir o ruído do movimento de rotação da Terra. Feito nas novelas das seis, eu abri a boca quando ouvi a resposta. Um lento Não. Um claro Não. Um seguro Não. Um límpido Não. Um tranquilo Não. Um sem dúvida alguma Não. Um afirmativo Não. Repete, pedi. Repetiu. Pede-se não enviar flores, pensei. Fechei a porta. Fiquei só, chovia. Com requintes de autopiedade, limpei devagarinho com feltro um disco da Elis, deitei no chão e ouvi umas cem vezes “Se quiser falar com Deus”. Quando já ia abrir o gás, corri para o telefone e pedi ao Zé Márcio Penido em Sampa: socorro. Vem, ele disse. Santo amigo. Fui, na mesma hora. Me estonteei, vi todos os filmes, todas as peças, revi todos os amigos, ouvi todos os discos, namorei o que deu. Tinham sido NOVE MESES de fidelidade, no amor-amor, é sempre supernatural. Quando decidi estou-ótimo-fullgás-total-posso-voltar, voltei. The reencontro: quando dei por mim estava dizendo as coisas mais duras e agressivas e cruéis e impiedosas e injustas e ferinas e baixas e grossas que uma pessoa pode dizer à outra.
Comecei a me perder pela cidade. Selecionei vinte gatos & gatas mais lindos do pedaço, dez semifinalistas, cinco finalistas, transei todos. Saí sem parar. De bar em bar, telefone tocando sem parar. Explodindo de vitalidade e saúde e sedução: capacidade de superação. Puxa, gente, como sou maravilhoso, como sou maduro e equilibrado, como sei dar a volta por cima, como não sou careta, como sou moderno e liberadésimo. Aí, desabou. Dez dias. De manhã bem cedo, chegando da vida, percebi uma pequena rachadura na parede externa do edifício. Avançava lentissimamente. Ao meio-dia rachou de alto a baixo. O edifício veio ao chão: me interna, pedi pra mãe, estou infeliz pra caralho. Peguei o pacote de cartas que tinha pedido de volta (fiz absolutamente todos os números, o problema é que a plateia estava vazia: ninguém aplaudiu minha melhor sequência de sapateado), coloquei aos pés de Ogum.
E agora, Caio F.? Agora, estou amanhecendo. Ah, me digo, então era assim. Essa coisa, o amor. Já conheço? Já conheço. Mas como é mesmo que se chama? Também não estou certo se estarei mesmo amanhecendo. Talvez, sim, anoitecendo, essas luzes penumbrosas são muito parecidas. Não sei muita coisa. Quase nada. Pedi? Levei. Nunca tinha sido tão intenso, nem tão bonito. Nunca tinha tido um jeito assim, tão forever. Não me diga que vai passar, vai passar, vai passar, vai passar. Não me diga que foi ótimo, o que você queria, a eternidade? Não me peça para não te encher o saco lamuriando. Posso não saber nada do coração das gentes, mas tenho a impressão, de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de “Atrás da porta”, ali no quando “dei pra maldizer o nosso lar pra sujar teu nome, te humilhar”. Chico Buarque é ótimo pra essas coisas. Billie Holiday é ótima pra essas coisas. E Drummond quando ensina que “o amor, caro colega, esse não consola nunca de núncaras”. Aí você saca que toda música, toda letra, todo poema, todo filme, toda peça, todo papo, todo romance, tudo e todos o tempo todo, antes, agora e depois, falam disso. Que o que você sente é único & indivisível e é exatamente igual à dor coletiva, da Rocinha a Biarritz. O coro de anjos de Antunes Filho levanta no ar, em triunfo, os corpos mortos de Romeu e Julieta enquanto os Beatles pedem um little help from my friends, e a plateia ainda aplaude de pede bis (o Gonzaguinha também é ótimo pra essas coisas). Meus amigos, abandonados para que eu pudesse mergulhar, voltaram a mil. Tem seus prazeres o fim do amor. Se é patologia, invenção cristã-judaico-ocidental-capitalista, ou maya, ego, se é babaquice, piração, se mudou-através-dos-tempos, puro sexo, carência, medo da morte: não interessa. Tenho certeza que estive lá, naquele terreno. Ele existe.
Por isso falo dele: Joyce e Paula me pediram elucubrações, as minhas são estas. Estou contando a vocês que estou fazendo elucubrações sobre o amor porque provavelmente, de uma outra forma vocês aí que me leem, talvez com tédio, também estão pensando a mesma coisa. O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor. Até as relações de produção, a luta de classes, a ecologia, o jogo pelo poder: tudo, questão de amor. Formas de amor. Amor é palavra que inventamos para dar nome ao Sol abstrato em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados. A vida toda. Mas se me perguntarem o que quero dizer com isso, não tenho resposta.
O que quero dizer é justamente o que estou dizendo. Não estou com pena de mim. Tá tudo bem. Tenho tomado banho, cortado as unhas, escovado os dentes, bebido leite. Meu coração continua batendo - taquicárdico, como sempre. Dá licença, Bob Dylan: it’s all right man, I’m just bleeding. Tá limpo. Sem ironias. Sem engano. Amanhã, depois, acontece de novo, não fecho nada, não fechamos nada, continuamos vivos e atrás da felicidade, a próxima vez vai ser ainda quem sabe mais celestial que desta, mais infernal também, pode ser, deixa pintar. Se tiver aprendido lições (amor é pedagógico?), até aproveito e não faço tanta besteira. Mas acho que amor não é cursinho pré-vestibular. Ninguém encontra seu nome no listão dos aprovados. A gente só fica assim. Parado olhando a medida do Bonfim no pulso esquerdo, lado do coração e pensando, pois é, vejam só, não me valeu.“
*Texto de Caio Fernando Abreu na revista Around, por volta de 1985. Retirado do livro "Para sempre teu, Caio F.”, de Paula Dip.